Dia da Consciência Negra. No palco de um evento tradicional do Estácio, a prefeitura escolheu um estranho roteiro simbólico: usar uma celebração da memória negra para lançar mais uma operação urbana. Batizada de “Praça Onze Maravilha”. O nome tenta acenar para a história; o conteúdo, porém, repete a velha fórmula da cidade-negócio.
Enquanto Porto Maravilha ainda patina com edifícios vazios, terrenos cercados e pouca vida cotidiana real, a prefeitura apresenta mais um experimento com o mesmo DNA: criar valor construtivo para operações imobiliárias, embrulhado em discurso de “revitalização” e “cultura”. A lógica é conhecida desde o Estatuto da Cidade: produz-se solo criado, vende-se potencial construtivo, atrai-se capital financeiro, promete-se urbanidade, mas esta nunca vem. Na prática, entrega-se um pacote de adensamento, edifícios inexpressivos e usos sazonais, desconectados da vida de quem sustenta aquele território, outrora esquecido, no dia a dia.
É importante lembrar onde estamos pisando. A área da antiga Praça Onze, berço do samba, território de negros, pobres, ciganos, imigrantes, já foi estraçalhada várias vezes em nome da “modernização” global do Rio. A Avenida Presidente Vargas demoliu casas e modos de vida inteiros. O viaduto 31 de Março aprofundou o rasgo social e urbano. O que antes era território de compartilhamento, festa, trabalho e moradia virou corredor de passagem rápida, cheio de vazios e cicatrizes. Agora, o projeto chega mais sofisticado: menos demolição direta, mais captura simbólica. Usa a cultura negra como cenário de fundo para abrir caminho a uma nova rodada de valorização fundiária voltada para os de cultura branca.
Dentro desse pacote, surgem dois equipamentos que, vistos isoladamente, me parecem potentes: a Biblioteca dos Saberes e o Centro Cultural Rio-Áfricas. São ideias que, em outros arranjos urbanísticos, podem fortalecer um verdadeiro direito à cidade, à memória e à produção de conhecimento a partir das periferias negras. Aqui, porém, surgem como âncoras de um tabuleiro imobiliário vazio de lógica inclusiva. Servem para dar verniz “afro” a um modelo que já conhecemos bem no Porto Maravilha: torres adensadas, arquiteturas genéricas, usos voltados para turismo, escritórios e moradia temporária, com pouco enraizamento comunitário. O projeto peca não apenas no processo econômico que o viabiliza, a própria lógica do projeto parece não compreender bem a dinâmica daquela região, sequer no seu apogeu funcional: o Carnaval.
À primeira vista, pode parecer que funciona. É uma região atravessada por megaeventos sazonais, shows, carnaval e desfiles na Sapucaí. O problema é justamente esse: a cidade-espetáculo encobre a cidade real da mesma forma que os camarotes não veem o que acontece embaixo do Balança mas não cai. A operação urbana não se pergunta o que acontece no Catumbi numa terça-feira chuvosa de março, quando não há bloco, não há show, não há turista, assim como o Viaduto 31 de Março também não perguntou. Não enfrenta as condições de moradia precária nos arredores, a informalidade do trabalho, o transporte caro e ineficiente, a dificuldade de acesso a serviços públicos básicos. Repete-se o que já aconteceu no Porto: milhões investidos no cenário, pouca transformação estrutural na vida de quem mora e trabalha por perto. E que loucura, com quilometros de praça criada ao longo do cais, resolvem inventar um parque em uma ilha artificial com uma entrada só. Saudades do velho Niemeyer que pensou ao menos que as estruturas do sambódromo abrigariam escolas públicas nos demais dias do ano.
A dinâmica social de formação do Rio segue exibindo suas feridas abertas. A cidade insiste em tratar seu espaço como ativo financeiro, não como infraestrutura de vida cidadã. Em vez de assumir a urbanidade: rua, praça, transporte, moradia digna, equipamentos públicos robustos como base concreta para reconstruir vínculos, a prefeitura aposta em mais uma operação que empilha metros quadrados vendáveis para uso de airbnb. A memória negra, a cultura popular e a história da Praça Onze aparecem como logomarca, não como sujeito político de decisão.
Criticar um projeto como o “Praça Onze Maravilha” não é ser contra cultura, nem contra novos equipamentos urbanos e arquitetonicos. É exigir que não se repita o ciclo em que a cidade negra é usada como palco, mas segue excluída da plateia e dos lucros. A Cury os lucros, aos povos negros a bala de fuzil, triste corolário desta cidade.
Pergunto-me honestamente: alguém debateu abertamente este projeto com os moradores da Rocinha, do Alemão, da Maré? descendentes diretos dos processos de exclusão e massacre desta cidade. Se a intenção fosse realmente construir um outro modelo, o ponto de partida seria ouvir e integrar quem já está ali e sua ancestralidade: blocos, terreiros, escolas de samba, moradores, trabalhadoras e trabalhadores que, há décadas, seguram o cotidiano que não sai na foto oficial.
Foi um evento bonito, fico grato pelo convite recebido, mas, em um evento onde a Arquitetura assumiu centralidade no debate de luta contra o massacre negro desde tempos escravagistas, é necessário que eu enquanto arquiteto tenha responsabilidade sobre o fazer e teça a crítica necessária para que o massacre não se repita no material e subjetivo. Ainda há tempo de fazer uma ação mais coerente e inclusiva, tendo como protagonista a necessidade real do nosso povo. Arquitetura e Urbanismo é escolha política, esta frase foi falada inclusive pelo vice-prefeito! E sobre isso complemento: escolha política têm cor, classe e território.
Tenhamos cuidado ou a Praça Onze seguirá como metáfora cruel: o lugar onde a cidade celebra a negritude no discurso e no fetiche, enquanto reorganiza o espaço para expulsá-la, mais uma vez, na prática material.
Ainda conseguimos falar de planejamento em um mundo de não-cidades? A cidade sempre foi o palco dos encontros. Criamos templos, ágoras, praças, passeios, cafés, incluo até os shoppings; formas concretas de organizar nossas demandas e afetos segundo os modelos sociais e econômicos de cada tempo. Mas na era da hiperinformação, a cidade perde essa função básica: reunir. Um clique no Teams dobra espaço-tempo e aproxima Dubai de São Paulo. O que parecia impossível ontem já virou banalidade hoje.
E nessa ausência de cidade, o capital encontrou a chave para um novo ordenamento. Os condomínios: autossuficientes, murados, higienizados por crédito, financiamento e controle digital. Até o porteiro já não precisa mais habitar o mesmo chão do morador: um algoritmo o substitui em uma central distante. O condomínio esvazia a função pública da cidade, como se o planejamento urbano não passasse agora de uma ficção burocrática. Planejar pra quê? Para gerar solo criado que logo será engolido e convertido em mais condomínio.
Essa é a lógica que se espalha pelo Brasil. Entre 2009 e 2015, foram R$ 788 bilhões em habitação financiada pelo FGTS, orçamento público ou capital privado, sem contrapartida equivalente em mobilidade, saneamento ou espaço público, como mostra Maricato. Um padrão se repete: enclaves isolados, que reforçam a segregação socioespacial e restringem o acesso comum. Milton Santos já advertia: o território, apropriado seletivamente pelo capital, torna-se um mecanismo de exclusão.
Os estudos de caso não deixam dúvidas. Em Sorocaba, comparações entre bairros convencionais e condomínios fechados revelam disparidades evidentes no acesso a áreas verdes e lazer. Em tantos municípios, a expansão se dá sobre vazios urbanos, sem qualquer integração com planos diretores ou a malha urbana tradicional das cidades. O projeto de cidade pode ficar até bonito no papel dos planos diretores, mas na prática ficam à margem da engrenagem financeira imobiliária que vende na planta, vende na obra, vende depois de pronto.
O entorno? Não importa. O bairro? Irrelevante. A autossuficiência condominial resolve. O que faltar, complementamos com um shopping. O quintal com galinha e horta virou memória quase esquecida. O alimento, que o pobre produzia em casa de quintal, pequenas roças e granjas, virou ativo do agronegócio, rodando nas engrenagens do sistema financeiro, lado a lado com o sistema imobiliário.
Planejamento urbano, então, passa a ser outra coisa. Não mais apenas a técnica de organizar ruas e bairros, mas um campo de disputa e resistência. Disputa contra a apropriação mercantil que privatiza o espaço urbano e ambiental resistência contra a uso técnico para justificar a exploração. Porque essa hegemonia do capital é excludente? a maioria da população não cabe nela, ainda que queira, não tem crédito, não tem renda e muitos que tem, não conseguem pagar anos a fio. Além disso, a maioria das cidades brasileiras é de médio ou pequeno porte, não há demanda real para esta prática. Condominializar não resolve, metropolizar não resolve, verticalizar não resolve.
Contemporaneamente temos dois macro padrões se espraiando muito rápido. Imóveis verticais feitos para uso de sistemas de moradia intermitente tipo airbnb, e a alphavillização das cidades médias e pequenas. Em comum, ambos têm uma lógica genérica preparada para implementar-se em qualquer vazio urbano e uma lógica econômica que os permite funcionar desconectados da real demanda de habitação das sociedades. Aqui, reside o maior problema da relação entre o modelo, a cidade e o plano diretor.
O risco deste modelo de operar o espaço é criarmos imóveis para poucos e esquecer que a vida acontece fora dos muros. A cidade continua, com ou sem eles. E o planejamento, se ainda tem sentido, é o de devolver a cidade ao comum: reconectar, democratizar, criar frestas contra a homogeneização genérica. Mas como recuperar a importância e força do Planejamento Urbano e Territorial,? É preciso assumirmos que uma sociedade complexa também exigirá de nós, um olhar mais sofisticado e complexo na lida política, científica e técnica da produção deste instrumento.
A primeira lembrança que me atravessa quando se fala em interiores não é um catálogo de decoração, mas a casa da minha avó. Ali, a vida tinha escala de 1×1: o corpo inteiro cabia entre o bordado da capinha do gás, a máquina de costura que se transformava em carro de fórmula 1, o quintal que era ao mesmo tempo o mundo inteiro e cantinho de acolhimento. É dessa escala íntima, olho no olho, que eu via nascer a arquitetura. A arquitetura é um colo de avó, um bolo de laranja quentinho na mesa, um sol que entra na fresta da janela.
No Brasil, a profissão foi arrastada para um dilema: somos vistos ora como luxo e supérfluo, ora como engrenagem de projetos estatais grandiosos e inacabados. No meio, fica o vazio: a vida cotidiana do povo.
Essa fratura não é apenas cultural; ela é estrutural, econômica. Em poucas décadas, deixamos de ocupar um lugar estratégico dentro do projeto nacional de desenvolvimento e passamos a ser percebidos como caros e substituíveis. A armadilha, a meu ver se aprofundou quando a profissão centralizou-se na lógica do luxo como um caminho único. E isso não é necessariamente uma crítica implacável à arquitetura de luxo, que tem seu espaço de direito na sociedade atual.
O luxo funciona como dispositivo de status e exclusividade: molda o gosto, define o que é belo e desejável, mas apenas para uma fração ínfima da sociedade. A classe média, que em países industrializados sustenta tanto o consumo quanto a cultura material da sociedade, no Brasil nunca se consolidou plenamente. E os pobres, que são maioria, só nos enxergam quando o Estado entra em seus territórios com grandes obras, remoções ou empreendimentos de impacto praticamente autoritário. Fora disso, a figura do arquiteto desaparece de seu horizonte de vida, diferente do médico por exemplo.
Essa ausência tem consequências devastadoras. Quando o cotidiano das famílias não reconhece o arquiteto como parte de sua economia; alguém que resolve problemas espaciais urgentes, que age na escala doméstica, comunitária, de vizinhança, a profissão se isola. E quando uma categoria se isola, perde relevância social e política. É sintomático que, enquanto o país vivia a explosão de consumo de carros e imóveis nos anos 2000, embalado pela ascensão de milhões ao consumo básico, nós não conseguimos nos inserir como serviço acessível para essa massa. Continuamos restritos a dois pólos já citados: o do luxo exclusivo e o do planejamento estatal de megaprojetos. Ambos distantes da vida real.
É nesse ponto que precisamos recuperar uma lição das escalas. Há a escala da família: o sofá da avó, o banheiro que falta em tantas casas brasileiras, o quartinho inacabado do filho o espaço íntimo que define dignidade. Há a escala da comunidade: a rua onde se joga bola, a praça onde se organiza uma festa, a rede de solidariedade que sustenta bairros inteiros. E há a escala da multidão e do estatal: os fluxos da cidade, os planos que estruturam mobilidade, habitação e saúde coletiva. Claro, não são escalas fechadas, longe de mim querer atravessar a cidade por apenas três recortes possíveis, apenas simplifico para fins de dar algum inicio de pensamento sobre o tema.
O arquiteto, ou o estudante de arquitetura precisa ser capaz de transitar entre essas dimensões, sem perder de vista que elas se conectam como sistema, como ensinavam os pensadores que viam o espaço não apenas como território físico, mas como campo de cidadania, de luta, de afetos.
Se a economia brasileira gira em torno de estratégias de mega exclusão e certa inclusão controlada para evitar grandes turbas disruptivas, a arquitetura não pode se reduzir ser apenas vitrine da exclusividade. A profissão precisa se reorganizar a partir da vida real, da urgência, daquele que não pode esperar seis meses por um projeto para então começar uma obra. Nosso trabalho tem de ser mais ágil, mais enraizado, mais próximo do cotidiano da maioria. Não se trata de reduzir a qualidade ou o rigor técnico, mas de reinventar formas de inserção econômica laboral: organizações coletivas, solidárias, mutirões, cooperativismos, abertas a novas economias de escala que vão do mutirão à assistência técnica, do microempreendimento comunitário às tecnologias sociais, da carreira de estado à arquitetura liberal de atendimento popular.
Sem uma estratégia econômica que inclua de fato o povo, não haverá campo de trabalho sustentável para a arquitetura. E sem arquitetos presentes no cotidiano popular, não haverá cidade justa. Entre o sofá da avó e os grandes planos da nação, existe uma vasta zona de vida que precisa ser ocupada, praticamente um universo de cores que se assemelha a um quadro de Pollock. É ali que a arquitetura pode recuperar sua relevância. Não como luxo, não como burocracia estatal distante, mas como prática social que desenha futuro a partir do olho no olho, da escala humana, daquilo que funda a dignidade de viver.
Para tal, temos uma missão: compreender, técnica e cientificamente, onde estamos e para onde podemos ir. Isso começa pelo gesto simples de olhar ao redor: o bairro, a rua, a casa do vizinho que precisa de um banheiro digno. Jovens arquitetos podem se organizar em coletivos, experimentar formatos de cooperativas, oferecer serviços acessíveis de assistência técnica, participar de mutirões de construção, articular-se com movimentos sociais e comunidades. Outros podem se dedicar ao setor público, disputando políticas urbanas e habitacionais de forma crítica. Há também espaço para a inovação: explorar tecnologias sociais, novos materiais e soluções sustentáveis de baixo custo.
O ponto é não esperar pela grande encomenda ou pelo concurso distante; é começar nos interstícios, nos entremeios, nos lugares que parecem pequenos, mas que são o coração da vida real. É ali que a arquitetura renasce como prática social. Não precisamos reinventar tudo de uma vez, nem sermos reféns de ferramentas. Afinal não é a ferramenta que define o arquiteto, é o arquiteto que define a ferramenta que vai utilizar. Basta iniciar os processos, criar redes e caminhar juntos. A relevância virá quando conseguirmos estar presentes na escala da família, da comunidade e da multidão, com a coragem de projetar os afetos dos mais pobres. Ou estamos presentes na escala da vida real, ou seremos apenas designers do privilégio.
O Brasil vive momentos de aparente ascensão estratégica. A retomada de relações com blocos globais, especialmente a aproximação com a China, abre novas trilhas para a industrialização do Norte e Nordeste, regiões historicamente à margem do modelo de desenvolvimento nacional. Essa reorientação poderia sinalizar uma guinada justa, com mais equilíbrio territorial, autonomia energética e cooperação tecnológica Sul-Sul.
Sob a cortina de fumaça gerada pela prisão domiciliar de Bolsonaro, o Congresso avança no desmonte do licenciamento ambiental. Ironias à parte, trata-se de uma pauta essencialmente bolsonarista, quem não se lembra de Ricardo Salles mandando “passar a boiada”? O mais alarmante, no entanto, é que a flexibilização vem sendo aprovada com apoio expressivo de partidos da própria base ministerial do governo. A boiada agora atravessa novamente o plenário com selo de governabilidade.
Há nisso um problema profundo, recorrente e perigoso: o Brasil tenta construir um novo futuro, sempre com os mesmos vícios técnicos e políticos do passado. A tentativa de flexibilizar o licenciamento ambiental; vendida como “destravar o progresso”; ameaça corroer não só os ecossistemas, mas também a credibilidade internacional do país.
A erosão das salvaguardas ambientais expõe o Brasil a riscos estratégicos. Parcerias internacionais que se pautam por critérios ESG, por soberania alimentar e por transições verdes justas, começarão a desconfiar da validade de investir no País. Não se assina acordo com um País que desmonta seus mecanismos de controle ambiental enquanto a grilagem, jagunçagem e todo tipo de violencia territorial avançam sobre terras indígenas, áreas de proteção ambiental, biomas frageis e raros, reservas e zonas de recarga aquífera. O arco que se estende do Centro-Oeste à Amazônia Legal tornou-se um laboratório de guerra e destruição que ameaça travar qualquer agenda diplomática climática. Isso, em pleno ano de COP30!
Há, portanto, uma dicotomia gritante: de um lado, a construção de polos tecnológicos e produtivos no Nordeste, com apoio de infraestrutura ferroviária, energia limpa e intercâmbio científico. Que ajudaria o país a criar um desenvolvimento moderno que nunca teve. De outro, a legalização do desmatamento por omissão e a reprodução de velhos pactos extrativistas no coração do território nacional.
A crítica aqui não é à industrialização, nem à aproximação com potências não ocidentais. O erro está em imaginar que o mundo de 2025 permitirá um projeto de desenvolvimento que ignore os limites ecológicos do planeta. Defender este projeto é assumir que queremos como parceiros exploradores insensatos, milícias, grileiros, e tudo de pior que existe aqui e suas versões mundo a fora.
O trator do desenvolvimento não pode passar pelas florestas sem licença. O tempo da expansão predatória acabou. Países que insistem nisso tornar-se-ão párias comerciais e diplomáticos.
O que está em jogo é mais do que proteção de florestas, é a reinvenção do Brasil como parte de um ecossistema global de justiça, autonomia e regeneração. Um Brasil que tem toda condição de se tornar modelo global para um novo paradigma de nosso ser-estar no mundo. Um país que queira liderar o novo século não pode ser cúmplice de sua própria ruína.
Leituras complementares:
1 Correntão é vendido na internet como dicas para evitar fiscalização – aqui
2 Brazil’s congress passes bill to overhaul environmental regulations: – aqui
3 El Congreso de Brasil desmonta el pilar de la legislación ambiental del país y asesta otra derrota a Lula. – aqui
4 Brazil passes ‘devastation bill’ that drastically weakens environmental law: – aqui
A transformação da presença chinesa na América Latina nas últimas duas décadas é contundente: o que antes era um ator periférico virou potência econômica, diplomática e geopolítica, hoje rivalizando com Estados Unidos e União Europeia. No Brasil, e, em especial, no Nordeste, esse fenômeno eclode como marco estratégico. Após décadas de centralidade econômica no Sul e Sudeste, a região nordestina desponta como um pólo decisivo para os investimentos chineses, com potencial real de impulsionar a economia local e intenção de reverter parte da desindustrialização nacional.
A China é, desde 2025, o principal parceiro comercial da América do Sul e, no conjunto da LAC, ocupa a segunda colocação. Seu interesse está centrado em matérias-primas críticas como o lítio, cobre, níquel e terras raras, essenciais à transição energética global. A construção do megaporto de Chancay, no Peru, financiado por capitais chineses, é peça-chave dessa nova logística: uma mega engenharia que posiciona o eixo Ásia–América Latina diretamente pelo Pacífico, reduzindo custos e tempo de transporte. O projeto: integrar o Nordeste brasileiro a essa rede, seja por meio de uma ferrovia ligando Ilhéus a Chancay, criando uma alternativa inclusive ao Canal do Panamá.
Na área energética, o engajamento chinês no Nordeste é evidente. Empresas como State Grid, CGN, Three Gorges Group e Goldwind mantêm presença ativa, especialmente em parques eólicos no Piauí e na Bahia. A chegada da BYD, instalada em Camaçari, assumindo a estrutura industrial antes ocupada pela Ford, simboliza a reconfiguração da indústria automotiva: o futuro elétrico chegou, e a China o lidera. Soma-se a isso o interesse de gigantes tecnológicos como a ByteDance por data centers na região, atraídos pela energia renovável e pela posição geográfica estratégica.
É inegável que tais investimentos trazem esperança de crescimento e diversificação econômica para as regiões historicamente negligenciadas. Mas, sem políticas públicas bem estruturadas, os riscos são grandes. Casos como o de operários chineses submetidos a trabalho análogo à escravidão, cisternas rompidas, aerogeradores implantados sem consulta prévia e o controle estrangeiro sobre jazidas estratégicas como a mina de Serrote, em Alagoas, acendem alertas.
Esses riscos ganham relevo num cenário geopolítico de disputas entre China, EUA e UE. Sob a presidência brasileira, o BRICS tenta articular uma nova ordem global mais inclusiva. O New Development Bank, com seu fundo de garantias, e iniciativas como o BRICS Pay apontam para uma tentativa de descentralização financeira. Recentemente, Xi Jinping anunciou US$ 9,2 bilhões em crédito para a América Latina, fortalecendo os laços Sul–Sul. Contudo, a ausência do líder chinês na cúpula do BRICS no Rio acentua dúvidas sobre a real capacidade de coesão do bloco.
Se o Brasil deseja transformar essa conjuntura em um projeto de desenvolvimento nacional genuíno, será preciso mais que otimismo. É necessário investimento em infraestrutura, educação técnica, pesquisa aplicada, soberania digital e, sobretudo, regulação ambiental rigorosa. A preservação do semiárido e da caatinga e floresta amazônica, biomas únicos e frágeis, precisa ser pensada junto aos modelos de produção, energia e mobilidade. A política nacional precisa ser firme: sem mecanismos de compensação ambiental, fiscalização e retorno social, corremos o risco de transformar a riqueza natural em mais uma tragédia socioambiental.
A negligência de parceiros tradicionais, como EUA e UE, abriu espaço para o avanço chinês. Mas isso não pode significar submissão a uma nova forma de colonialismo, como já se observa em partes da África. Precisamos garantir que os investimentos estrangeiros venham acompanhados de troca de saberes e tecnologia, empregos qualificados, inovação local e respeito aos povos e territórios.
O Brasil opera sua política internacional hoje muito sob a diretriz do “não alinhamento ativo”, posição delicada, mas que tem sua potência. Ela exige articulação diplomática séria para garantir ações de mediação continua, porém mais ainda, um projeto de país muito claro, que enfrente a desigualdade com estratégia, soberania e visão ecológica de futuro para que não nos tornemos mediadores indecisos, o que nos levaria a perder credibilidade.
O Norte e o Nordeste podem ser os motores de uma nova etapa do Brasil. Mas é fundamental que isso aconteça com transparência, regras bem definidas, valor agregado e benefícios reais à população. Estamos falando do território mais fragilizado do país, onde convivem índices alarmantes de pobreza com uma biodiversidade preciosa e ameaçada. A entrada cega de um modelo econômico puramente extrativista, ou de um desenvolvimentismo sem planejamento ambiental, ou um novo parceiro econômico sem definir os limites do jogo (mesmo um tabuleiro de go tem seu limite padrão definido em 19×19), pode nos colocar no pior cenário possível: crescer se destruindo.
A história exige vigilância e a política exige ação. A janela está aberta. O bonde passa agora. E é hora de decidirmos como queremos conduzir.
Lantera Chinesa (Abutilon striatum): Nativa da América do Sul.
Alaa com Nimah menos de 24 horas após seu nascimento – Cortesia de Alaa al-Nimer foto original: Aljazeera
Na madrugada de 21 de junho de 2025, o mundo acordou mais tenso. Os Estados Unidos bombardearam instalações nucleares no Irã com bombas de penetração massiva. Os alvos principais foram as estruturas de enriquecimento de urânio. Compondo uma nova encruzilhada geopolítica que ameaça empurrar o planeta para mais um ciclo de violência.
A justificativa oficial é a contenção. Impedir que o Irã desenvolva armas nucleares que, segundo os aliados israelenses, poderiam ameaçar a paz de Israel. É a lógica do ataque preventivo. Muitos israelenses, inclusive críticos de Netanyahu, apoiam essa narrativa, chamando-a de “guerra existencial”. Uma guerra, dizem, por sobrevivência.
O conflito entre Israel e Irã, e de forma mais ampla entre Israel e Palestina, revela um espelho humano desconfortável. Ali se projetam séculos de colonialismo, intervenções ocidentais mal resolvidas e narrativas cuidadosamente moldadas para justificar o injustificável. O Ocidente precisa reconhecer seu papel neste processo de limpeza étnica, ao se omitir diante das estruturas territoriais que ajudou a consolidar.
Não vejo, no horizonte próximo, uma saída nítida. Com o fim da era do petróleo e a busca global por novas fontes energéticas, o Irã precisará apostar na energia nuclear como estratégia de soberania. Por sua vez, a desconfiança do bloco formado por Israel, EUA e Europa torna impossível qualquer avanço sem tensão entre as partes. A ascensão de poderes ultraconservadores, sejam teocráticos como no Irã, parlamentares ultra-nacionalistas como em Israel ou militantes como no Hamas, transforma a guerra em condição permanente no território. Vamos explorar alguns pontos.
O argumento sionista da “guerra existencial” perde força diante da desigualdade bélica. Não é possível comparar de forma equânime os arsenais de Israel e Palestina, nem justificar como defesa, a recusa de ajuda humanitária à população de Gaza. Aqui precisamos assumir um princípio pétreo: o Ocidente se cala diante das ações de Israel, rotulando qualquer crítica como antissemitismo. Em nome de práticas e acordos econômicos historicamente firmados, não praticam uma boa política de resolução de conflitos. Poucas nações tiveram a coragem da África do Sul em denunciar Israel na Corte Internacional por prática de genocídio. Enquanto isso, seguimos exigindo que os palestinos se comportem como bons colonizados. Se resistem, são terroristas. Se protestam, são ignorados. Se morrem, viram estatística. E pedimos uma paz etérea, sem ação.
O ataque ao Irã, mais que mera resposta a ameaças nucleares, é uma exibição de força, um recado sobre quem deseja comandar o tabuleiro. Mais uma vez, os civis pagam o preço. Em Teerã, Gaza, Tel Aviv ou Beirute, pessoas comuns só querem viver, trabalhar, criar filhos e cuidar dos seus. Mas veem seus sonhos destruídos por discursos belicistas disfarçados de patriotismo, autodefesa, ou religião e bombas que transformam suas vidas e cidades em terra arrasada.
As potências se movem com a frieza clássica das Nações. A Rússia torce pelo caos, desviando atenções da Ucrânia enquanto negocia com quem lhe interessa. A China observa, pragmática, enquanto seu fornecedor de petróleo entra em colapso. A Europa vacila. Quer paz, mas teme confrontar Washington. Quer direitos humanos, mas evita encarar seus próprios telhados de vidro.
O mundo, por sua vez, se perde num jogo maniqueísta. Uns defendem o Irã ou o Hamas, como resistência pura, outros o Ocidente Judaico Cristão, Israel e sua “necessidade” de guerra. Esquecemos que nenhum desses garante os direitos humanos nem para seus próprios povos. Precisamos romper esse ciclo. Boicotes e sanções precisam ser aplicados não apenas a Palestina ou a Israel, mas principalmente ao Hamas, Irã, EUA, Rússia, China e todos que alimentam e fazem girar uma parte da economia pela lógica da destruição.
O caminho mais difícil, porém necessário, é o reconhecimento de que nenhum povo liberta a si mesmo destruindo o outro. Assim foi no passado, antes do delírio sionista que nem todos os judeus aceitam. A vida pós-Holocausto não pode existir à custa de um novo Holocausto, seja ele palestino, curdo ou iraniano.
Para piorar, a guerra também se alimenta de discursos religiosos dogmáticos. A ideia de uma Terra Santa, o retorno do profeta, a reconstrução do templo sagrado, criam terreno fértil para o circuito global de ódio. No Brasil, líderes evangélicos como André Valadão justificam o genocídio com base em profecias. A guerra seria inevitável, parte do fim dos tempos e necessária para a volta do Messias. Como se Cristo, o mesmo pregou o amor ao próximo, precisasse do extermínio de um povo inteiro para retornar. Assim, a distopia e o apocalipse substituem a política.
Essas estruturas de poder no Oriente Médio, marcadas por patriarcado, religião e geopolítica, atingem com força especial as mulheres. A guerra, em todas as suas camadas, reforça o domínio masculino sobre o território, o poder e os corpos. Não à toa, os maiores índices de vítimas são mulheres e crianças. No Irã, avanços conquistados antes da Revolução de 1979 foram revertidos tão logo o Regime se implantou. A moral religiosa restringiu direitos, reduziu a presença feminina no mercado de trabalho e impôs submissão legal. Vale lembrar que não faz nem três anos que Mahsa Amini, uma jovem curda-iraniana foi assassinada por forças policiais tendo como crime: seu hijab não atendia aos padrões obrigatórios do governo.
Na Palestina, a condição das mulheres, especialmente em Gaza e Cisjordânia, é ainda mais agravada pela colonização israelense e pelas práticas ideológicas conservadoras tanto do Sionismo quanto do próprio Hamas. Elas enfrentam uma dupla opressão: a violência e o controle de Israel, que restringe seus direitos básicos e perpetua práticas de apartheid, e as leis discriminatórias impostas pelo Hamas. A contradição e violência institucionalizam a desigualdade e limitam a presença das mulheres na esfera pública, embora mantenham taticamente ativas suas mobilizações de resistência. Além da baixa participação política, mulheres palestinas lidam com restrições legais à herança, ao trabalho, à mobilidade e ao próprio corpo. A falta de leis contra a violência doméstica, aliada a um sistema jurídico que marginaliza a palavra feminina, consolida um cenário de violação sistemática dos direitos humanos.
A situação em Israel também revela contradições profundas. O feminismo é incompatível com o sionismo, uma vez que este se estrutura na colonização e dominação de outro povo. A ocupação e a negação de direitos aos palestinos e a sistemática ação de limpeza étnica por meio do extermínio, inclusive realizada por mulheres soldados, evidencia um tipo de feminismo seletivo, que se mostra insustentável frente às lutas por igualdade universal.
A luta da mulher palestina se torna múltipla: ao mesmo tempo enfrenta todas as contradições internas de um sistema conservador do qual faz parte, enquanto combate e resiste diante do processo de criminalização e desumanização traçado pelo ocidente. Ao mesmo tempo, também tem de lidar com a lógica colonizadora do ocidentalismo de ajudar a suas lutas, que muitas vezes atrapalham mais que apóiam.
Porém, mesmo diante da repressão, os movimentos feministas islâmicos resistem. No Irã, por meio da educação, do ativismo jurídico e da reinterpretação do Corão. Na Palestina, mulheres atuam nas linhas de frente da resistência (ainda que não estejam nas direções políticas do Hamas), atuam em espaços comunitários, questionam normas religiosas machistas e organizam redes de solidariedade. Sob regimes autoritários, sua força continua sendo central para a transformação política e cultural no Oriente Médio.
Talvez seja hora de mudar a pergunta. Em vez de discutir que nação está certa nessa guerra, precisamos pensar no que estamos dispostos a fazer para que a guerra acabe. A vida não é sobre lados. É sobre recusar uma lógica que transforma sofrimento humano, racismo, machismo, xenofobia em ferramenta de controle de poder.
Se viver no Rio de Janeiro nos ensinou algo, foi que mais armas nunca trarão paz. Bombardear sem diálogo não desfaz o ódio. Ocupações e bloqueios não garantem segurança. É preciso inventar outro caminho. E ele só começa quando reconhecemos o valor da vida como centro de qualquer política e damos voz a quem está sendo massacrado. Parafraseando o Rappa: Paz sem voz, não é Paz, é medo, e o medo não deve ser instrumento do fazer político.
Lista de Referências interessantes:
GIL, Rafaela Herrmann. A mulher palestina e sua representatividade nos espaços de poder. 2019. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Relações Internacionais) – Universidade de Brasília, Brasília, 2019. Disponível em: https://bdm.unb.br/bitstream/10483/24494/1/2019_RafaelaHerrmannGil_tcc.pdf. Acesso em: 25 jun. 2025.
PETIT, Jérémie. L’autonomie féminine en islam chiite contemporain : l’exemple de l’Iran. Revue des mondes musulmans et de la Méditerranée, n. 143, 2018. Disponível em: https://journals.openedition.org/remmm/6971. Acesso em: 25 jun. 2025.
Vivemos tempos estranhos. Enquanto as redes sociais gritam, os mercados oscilam e as potências se encaram, parece faltar algo básico na política: a capacidade de ouvir, entender e negociar. A era Trump, com sua retórica agressiva e decisões impulsivas, expõe uma fragilidade maior; a de um mundo que paulatinamente tem perdido seus mecanismos de mediação.
A Europa, nesse cenário, parece ter ficado sem rumo. Diante das pressões americanas e do avanço econômico da China, suas reações foram, muitas vezes, descoordenadas e marcadas por políticas internas que mais enclausuram e desunem do que somam. O economista Yanis Varoufakis aponta isso com lucidez: a Europa está se tornando um apêndice hesitante de um império em declínio. E o pior é que faz isso sem um plano próprio, sem coragem de assumir um papel autônomo na discussão global.
Mas o que significaria, hoje, retomar um projeto coletivo? Talvez não seja tão complexo quanto parece. Não se trata de criar novas alianças para enfrentar inimigos, mas de reinventar os modos de convivência globais. Abandonar tarifas que não servem a ninguém. Investir conjuntamente em tecnologia e sustentabilidade. Fortalecer laços com países que também buscam um lugar mais justo na engrenagem global. E, acima de tudo, recuperar a capacidade da mediação e da negociação. Essa arte, que em tempos de polaridades exacerbadas e guerras, parece tão esquecida, de construir acordos a partir de interesses compartilhados.
Quando diferentes interesses são colocados à mesa, a mediação busca justamente aquilo que, à primeira vista, parece impossível: transformar conflito em oportunidade. Para isso, é preciso mais do que diplomacia formal. É necessário método, é isso que separa a mediação do romantismo. Reconhecer os próprios limites, abrir mão de posições rígidas e aceitar que o outro também tem razões legítimas. Essa é uma arte rara, especialmente em tempos de egos inflados, disputas sangrentas de poder e nacionalismos exacerbados.
Em vez de disputas baseadas em força ou prestígio, os acordos bem-sucedidos tendem a se apoiar em algo mais sutil: o reconhecimento de que há um ganho possível para todos, ainda que não seja o ganho pleno. Parcerias econômicas, intercâmbios tecnológicos, cooperação climática, tudo isso exige uma mudança de postura, em que algum grau de interesse comum se sobreponha à vaidade da disputa distópica da geopolítica. A Europa, por exemplo, poderia negociar diretamente com a China em torno de tecnologias verdes, não como quem desafia os EUA, mas como quem constroi pontes a partir de necessidades mútuas.
Essas negociações não se constroem em conferências relâmpago, mas em processos contínuos de escuta e operação conjunta. Elas exigem paciência, linguagem precisa e disposição para lidar com desacordos sem transformar tudo em guerra. É aí que a mediação se revela mais do que uma técnica: torna-se um modo de estar no mundo. Um modo de afirmar que, apesar das diferenças, ainda podemos e devemos construir futuros compartilhados.
É possível imaginar um mundo menos polarizado, se houver disposição para cooperar em vez de competir o tempo todo. A mediação, quando levada a sério, não é fraqueza: é maturidade política. É reconhecer que ninguém sobrevive sozinho em tempos de transição climática, crise econômica e tensões geopolíticas. Para a Europa, o convite está feito: em vez de seguir reagindo, pode escolher atuar. Não com gritos, mas com inteligência.
Talvez o que esteja em jogo não seja apenas uma disputa entre potências, mas a chance real de redesenhar as bases do sistema. As teorias da complexidade nos mostram que sistemas vivos, inclusive os sociais e econômicos, não operam bem sob controle centralizado e previsões lineares. Eles evoluem a partir da interação de múltiplos agentes, da cooperação descentralizada e de adaptação constante. Nesse sentido, o futuro não precisa repetir os impérios do passado: pode emergir como uma constelação de economias interdependentes, plurais, distribuídas, sem centros fixos, sem moedas únicas que arrastem nações inteiras para ciclos de dependência.
Uma economia global pensada a partir dessa lógica complexa não precisaria se apoiar em um único lastro, como o dólar, nem aceitar como naturais as atuais hierarquias de valor e poder. Poderia, ao contrário, reconhecer a diversidade de soluções locais, fomentar moedas complementares, redes de trocas descentralizadas, circuitos cooperativos de produção e alianças tecnológicas orientadas pelo bem comum. Em vez de mercados auto-regulados à moda antiga, teríamos ecossistemas econômicos interligados por princípios de equidade, sustentabilidade e solidariedade. A mediação, nesse novo mundo, deixa de ser um mero instrumento de conciliação entre velhos blocos, para se tornar um modo de cultivar a inteligência coletiva capaz de sustentar essa ordem viva e interdependente.
As duas frentes de conflitos armados do nosso tempo: Rússia vs Ucrânia e Israel vs Palestina, partilham uma engrenagem comum: a guerra converte solo habitado em tábula rasa, criando a oportunidade perfeita para que o capital entre, mapeie, loteie e venda. A assimetria de força militar é flagrante, A capacidade de resistir ucraniana sempre parece apontar para um momento impossível de segurar o contra-ataque, enquanto Palestina e Israel já pode ser assumido como um caso de genocídio disfarçado de narrativa de autodefesa. Mas há outra assimetria em vigor, a do espólio de guerra. Esta é a que mais interessa aos investidores: quem controla a ruína controla também o redesenho urbano do território. Em ambos os casos, o campo de batalha é precursor do canteiro de obras — e, muitas vezes, da corretora de imóveis.
Na Ucrânia, a recente ofensiva de drones que incendiou parte da frota estratégica russa mostrou que a tecnologia barata pode ferir um gigante, porém, isso não muda o desnível estrutural de poder nem evita que os escombros do combate virem um ativo financeiro. Já se calcula um plano de reconstrução de US$ 524 bilhões, acompanhado de um sistema de capital sedento por rentabilidade e de consultorias que apresentam Kiev como mercado dinâmico. Paralelamente, mantém-se o debate sobre abrir o mercado de terras a estrangeiros, enquanto moradores de cidades ocupadas precisam adotar passaportes russos para não perder a moradia. Enquanto a guerra devasta; o mercado imobiliário global agradece.
Em Gaza e na Cisjordânia, o roteiro é similar. A devastação de bairros inteiros alimenta projetos que sonham erguer um Balneário Camboriu do Oriente Médio ou um Dubai neofuturista: Gaza 2035, construído acima de um vazio demográfico, um apagamento histórico que se traduz em anúncios nas redes que vendem casas sobre ruínas vivas. O custo estimado para reconstruir Gaza passa de US$ 50 bilhões, cifra que desperta tanto fundos soberanos quanto incorporadoras privadas, todos prontos para transformar luto em metro quadrado. Aqui, a tábula rasa é literal: degola a história para assentar resorts, data-centers para os GAFAM e empreendimentos verdes.
O padrão é nítido: onde o míssil abre crateras, o mercado financeiro abre terrenos férteis de rendimento. A terra arrasada vira contabilidade no sistema, a dor e morte se converte em lucros e dividendos, e o mapa se refaz sem aqueles que habitavam a terra.
Assim, são pelo menos dois os níveis do massacre: o primeiro a limpeza étnica, territorial, comunitária e o segundo a transformação do solo criado em dinheiro para o vencedor. Este é o mesmo enfrentamento que acontece em escala local no tocando de uma ocupação sem teto. A ruptura desta engrenagem é dificílima, exige a retomada dos territórios pelos povos sobreviventes, a retomada do direito à memória e o não apagamento de seus modos de vida.
É possível construir um modelo de habitação ou de engenharia que não precise passar pelo instrumento da guerra? Sim, é totalmente possível, já temos inúmeros exemplos construídos e estudos de caso. A relação entre guerras e construção não é condicional. Não precisamos de guerras para construir, mas a guerra sempre gerará como espólio o território conquistado e o direito a reescrever a história e geografia de um povo inteiro.
Este texto propõe uma pequena análise ensaística ou de opinião sobre a crise institucional enfrentada por metrópoles contemporâneas, com especial atenção ao caso do Rio de Janeiro. A partir das discussões em aula realizada no curso A inteligência do espaço-tempo e o stress global e da teoria desenvolvida por Robin Dunbar que fora citada, sugere-se aqui uma pequena reflexão acerca dos limites cognitivos e organizacionais que moldam a governança urbana. Ainda que não se trate de um modelo absoluto, a teoria de Dunbar oferece um ponto de partida relevante para pensarmos os desafios atuais de gestão em cidades de grande porte.
Robin Dunbar, antropólogo britânico, propôs que existe um número máximo de relações sociais estáveis que um indivíduo é capaz de manter é de aproximadamente 150 pessoas. Conhecido como “número de Dunbar”, esse limite marca o ponto em que formas de organização social baseadas apenas em vínculos informais e confiança direta tornam-se inviáveis. A partir desse ponto, a complexidade social crescente demandaria a construção de instituições formais para manter a coesão e a funcionalidade do grupo. Mesmo que não tomemos esse número como exato, ele nos permite levantar uma questão fundamental: todo sistema organizacional possui um limiar a partir do qual precisa se tornar mais sofisticado para manter sua capacidade de governança.
Assim, podemos sugerir que tais instituições formais atualmente conhecidas por nós também enfrentam limites operacionais. Diversos estudiosos apontam que, em populações acima de 1 a 10 milhões de habitantes, os custos de manutenção institucional tendem a superar os benefícios, gerando ineficiência, sobrecarga burocrática e vulnerabilidades estruturais. Nesse ponto, os sistemas entram em risco de disfunção, colapso ou rupturas sistêmicas.
Essa problemática se torna plausível no contexto do Rio de Janeiro. Com uma região metropolitana que ultrapassa os 13 milhões de habitantes, a cidade opera em um grau de complexidade que supera a capacidade adaptativa de suas instituições centralizadas, construídas sob lógicas administrativas do século XX. A excessiva centralização do poder decisório, aliada à fragmentação territorial, à assimetria de informações e à lentidão das respostas institucionais, compromete a eficácia das políticas públicas e alimenta uma crise permanente de governança.
Nas periferias urbanas, como favelas e comunidades autogeridas, observa-se a formação de sistemas sociais quase autônomos, ou dominados por outras estruturas de poder, muitas vezes desconectados ou mesmo em confronto com os canais formais de poder consituído. Esses territórios, diante da ausência do Estado ou de sua atuação precária, tornam-se espaços disputados por múltiplos atores, legais ou não, que passam a exercer formas locais de governança mais ágeis e eficientes em seu escopo limitado. A perda gradual de controle institucional sobre o território fluminense reflete, assim, tanto a falência administrativa, como um descompasso entre o desenho das instituições e a complexidade do tecido social contemporâneo.
Redes distribuídas como alternativa estrutural
A ciência dos sistemas complexos nos oferece uma alternativa teórica e prática a esse modelo centralizado. Inspirada em estruturas biológicas e tecnológicas informacionais, ela propõe a reorganização da governança em redes distribuídas, sistemas com múltiplos centros de decisão, autônomos, interconectados por fluxos contínuos de informação e orientados por protocolos colaborativos.
Essa proposta poderia ser sintetizada em três linhas (a princípio):
Descentralização inteligente: por meio da criação de núcleos decisórios com autonomia territorial, como subprefeituras, associações locais e redes comunitárias. Esses núcleos seriam capazes de deliberar sobre questões específicas de seu território, comunicando suas decisões ao sistema mais amplo, sem a necessidade de submissão hierárquica. A descentralização, neste modelo, não implicaria a atual fragmentação vigente, mas uma reconfiguração organizativa a partir das redes.
Inteligência coletiva: com o uso de plataformas digitais participativas para elaboração, monitoramento e fiscalização de políticas públicas. Esses espaços virtuais podem funcionar como canais de escuta contínua e construção colaborativa, onde a população contribui de maneira orgânica e descentralizada. A tecnologia atual já nos permite sistematizar essas contribuições de forma eficiente, acelerando os processos pré-deliberativos e fortalecendo a legitimidade popular das decisões.
Adaptação em tempo real: a partir da incorporação de dados urbanos, sensores, algoritmos e inteligência artificial, é possível monitorar dinâmicas territoriais e redistribuir recursos públicos de forma responsiva e eficaz, acompanhando as variações reais da demanda nos diferentes bairros e regiões da metrópole. Um exemplo simples: uma mesma linha de ônibus poderia traçar uma rota diferente em determinados períodos como: dia e madrugada, em função do levantamento de demanda.
No caso do Rio de Janeiro, a adoção de um modelo de rede distribuída implicaria na reconversão de suas instituições executivas: elas deixariam de ser instâncias de comando centralizado tradicionais e passariam a funcionar como plataformas de articulação entre diferentes territórios. A administração pública atuaria como orquestradora de uma malha de redes locais, reconhecendo, fortalecendo e conectando as capacidades já existentes nas bases comunitárias. Iniciativas que hoje são tratadas como exceções ou soluções paliativas ou vozes retificadoras das políticas pensadas pelos poderes constituídos, como associações de moradores, mutirões urbanos e coletivos culturais, passariam a integrar a estrutura legítima de governança metropolitana como verdadeiras construtoras das políticas estruturantes da cidade.
O Rio de Janeiro encontra-se em um ponto crítico de inflexão. A insistência em modelos centralizados diante da complexidade crescente da metrópole não apenas limita a eficácia administrativa, como também representa uma ameaça à própria coesão urbana, cada vez mais frágil e tensionada pelos inúmeros poderes paralelos que conformam nosso território. A transição para uma governança distribuída, orientada pelos princípios da ciência dos sistemas complexos pode ser uma boa alternativa de saída. Ela oferece uma oportunidade para ressignificar o papel do Estado, potencializar o protagonismo cidadão e construir uma cidade mais adaptativa e democrática.
Falemos um pouco sobre os conceitos de estatal, público, privado e comum. Muitas vezes soam embaralhados no debate político e no circuito popular. É muito corriqueiro pensarmos o sistema estatal e o sistema público por exemplo como a mesma coisa, coisa de governo. Esse tipo de confusão acaba por esconder disputas de poder e visões diferentes, principalmente, sobre quem deve gerir o que é de todos e como deve ser gerido.
Estatal é tudo aquilo que pertence diretamente ao Estado. São bens e instituições geridas pelo poder público, com autoridade centralizada. Público, em sentido mais amplo, é aquilo que existe para uso e benefício de todos, independentemente de ser estatal ou não. Aqui está um sombreamento corriqueiro. Muitas vezes entendemos um bem estatal como um bem público. Ainda que seu produto final seja deste caráter específico, sua gestão não necessariamente é. Decisões de gestão da Petrobrás, por exemplo, não precisam de audiência pública aberta a todos os cidadãos brasileiros para acontecer.
O privado por sua vez, é mais simples de entender: aquilo que é de propriedade de indivíduos ou empresas, voltado para interesses particulares, ainda que sob regulação pública. É no campo privado que florescem a autonomia, o empreendedorismo e, ao mesmo tempo, as desigualdades.
Além destes, vou retomar aqui o conceito de comum, trazido por Antonio Negri. O comum não seria nem estatal, nem público nos moldes tradicionais. Sua principal distinção está no fato de que ele emerge da própria colaboração social. Ele é um modo de organização mais horizontalizado por natureza. Conhecimentos compartilhados, redes de solidariedade, práticas coletivas que não dependem do Estado nem de interesses privados. O comum é um espaço de invenção social e resistência.
Há um modelo que deva ser hegemônico? A meu ver não, cada modelo responde a um conjunto específico de necessidades sociais e pode ser operado de forma estratégica a partir da complexidade. Talvez o maior erro da gestão global, desde a revolução industrial, tenha sido a tentativa de impor um modelo hegemônico e referência paradigmática.
Simplificando: nem a estatização de todo o sistema econômico, como pregado por algumas tradições políticas de esquerda e nem o enxugamento ou fim da máquina estatal como pregado por inúmeros discursos neoliberais e capitalistas, resolverão o sistema. No meu modo de pensar: Há bens, instituições e serviços que precisam de uma gestão pública, há os que precisam de uma gestão estatal, há os que funcionam melhor no sistema privado e ainda há aqueles que funcionam muito melhor na organização pelo comum.
As confusões realmente começam quando os limites entre esses conceitos se tornam turvos. Uma escola pública, estatal em estrutura, deveria servir ao interesse público, mas quantas vezes vemos interesses privados infiltrados em sua gestão? Quantas vezes o Estado administra mal o que é público, esvaziando o sentido coletivo do bem? Ao mesmo tempo, quantas vezes uma corporação privada se utiliza de recurso e privilégio público e estatal para conseguir lucro ou benefícios?
Fora outros espectros de sombreamento. Organizações sociais que prestam serviços de saúde com verbas públicas, mas operam com gestão privada; empresas estatais que agem como corporação privada no mercado internacional; espaços públicos privatizados sob concessão. O mercado tenta se apropriar dos privilégios e benefícios do que é público; o Estado tenta governar o que poderia ser comum; o comum se perde sendo cooptado pelo Estado ou pelo mercado.
Entender essas distinções é um ato político. Saber onde termina o interesse público e começa o interesse privado é fundamental para defender direitos, garantir justiça social e reinventar novas formas de vida. Um bom desafio para o nosso tempo seria justamente este: resgatar o comum como um campo vivo de liberdade coletiva e reorganizar o projeto de nação espacializando melhor o que deve ser gerido de forma estatal, de forma pública, de forma comum e o que pode ser mercado.